6 de abril de 2011

Maré Alta - O legado de Edna Cardoso

Passou pouco mais de uma semana desde que a professora Edna Cardoso nos deixou. As muitas manifestações de pesar pelo seu desaparecimento revelaram a dimensão da pessoa que foi Edna Cardoso e aquilo que continua ainda a representar para muita gente.

Tinha eu apenas 18 anos quando conheci a professora Edna, era eu correspondente do jornal Cidade Hoje e ela a diretora desse mesmo jornal. Logo aí lhe reconheci um grande dinamismo e uma invulgar capacidade de trabalho e de liderança.

Voltamos a cruzar-nos vários anos mais tarde, em 2002, era eu dirigente associativo e ela vereadora da Câmara Municipal. Foi por seu intermédio que foi revitalizado o Conselho Municipal da Juventude.

Como cidadão atento, acompanhei sempre a sua atividade política, sindical e cívica. Li assiduamente e com atenção todas as suas crónicas na imprensa local. O meu respeito e consideração por ela foram sempre os mais elevados e sempre que nos cruzávamos na rua, o seu cumprimento discreto mas sincero revelava sempre a grandeza da sua personalidade.

Guardo o seu exemplo de pessoa de grandes combates, de nobres ideais, de uma tenacidade invulgar que lhe permitiu resistir e não se vergar perante nenhuma das muitas pressões que por ela foram exercidas ao longo de tantos anos de intensa atividade. O seu legado é extremamente valioso e não deve ser esquecido na longa espuma dos dias.

Nestes dias difíceis que vivemos, exemplos de coragem, de empenho, de dedicação, de luta, de resistência, de verticalidade, de respeito como o da professora Edna Cardoso são tão raros que é nossa obrigação cívica dar-lhe o devido destaque e sem demagogia ou populismos oportunistas, fazer-lhe o reconhecimento que lhe foi negado em vida.

Não deixem morrer o legado de Edna Cardoso!

(texto enviado para a Maré Alta do jornal Opinião Pública, mas não publicado)

30 de março de 2011

VII Convenção do Bloco de Esquerda

Foram ontem divulgadas as 4 moções em debate na VII convenção do Bloco de Esquerda que se realiza a 7 e 8 de Maio.
Ao contrário de edições anteriores, desta vez decidi não subscrever qualquer moção. Não querendo fazer qualquer tipo de analogia, recordo algo que ouvi há alguns anos atrás: "os porcos não sabem que são porcos porque estão sempre metidos no meio do chiqueiro" Por vezes torna-se necessário algum distanciamento, mesmo que pequeno, para podermos avaliar melhor o nosso percurso pessoal e colectivo.
Esta minha posição não significa qualquer divergência de fundo mas apenas que uma análise cuidada e livre das diferentes moções só será possível sem as limitações que uma subscrição naturalmente implica. A minha militância activa e empenhada não poderá nunca condicionar a minha liberdade de tomar ou não partido por esta ou aquela opção.
Apesar disso, manifesto aqui o meu agrado pelo empenho e pluralidade interna do BE representados no facto de existirem 4 moções a esta Convenção. Isto prova que o BE está devidamente consolidado, maduro e que continua a primar pelo respeito pelas diversas opiniões e correntes internas e que deverá implementar ainda mais esse factor com vista a um crescimento que corresponda às expectativas de cada vez mais portugueses e que venha, a prazo, a poder representar uma verdadeira alternativa de governação.



23 de março de 2011

Maré Alta de 23/03/2011


A menor das crises

Estamos a viver, por estes dias, um cenário de grande incerteza, de uma eminente crise política e de eleições legislativas antecipadas. Por mais que alguns o afirmem, uma crise política nesta altura não é, certamente, o pior dos nossos males. Pior que a crise política, é a crise económica e principalmente a crise social em que Portugal está mergulhado.

É evidente o desgaste, a incapacidade e o descrédito do actual Governo e é também evidente que o PSD está sedento de poder. Mas o pior que pode acontecer ao país é que uma crise política resulte numa simples mudança de intervenientes que continuem a implementar o mesmo tipo de receita em que se somam os sacrifícios exigidos ao povo.

Se o povo voltar a ter nas mãos o poder directo de mudança, que essa mudança seja efectiva e que se mude o tipo de política e não apenas as personagens.

É tempo de mudar as opções políticas. É tempo de termos governantes sem ligações aos grandes interesses económicos e financeiros, que tenham a coragem de aplicar uma justiça fiscal que equilibre as contas públicas sem atirar para a miséria uma considerável franja da população que vive já em grandes dificuldades.

Portugal precisa de quem tenha a visão de que as pessoas são sempre mais importantes que os mercados financeiros internacionais, que seja capaz de colocar o país em situação de não ter de andar sempre de chapéu na mão a hipotecar a nossa soberania junto dos grandes interesses europeus.

O povo não pode desperdiçar esta oportunidade de mudar o rumo do país, não estamos condenados a uma alternância de interesses entre os dois maiores partidos. Esse centrão já provou que não serve os interesses e as necessidades da grande maioria dos portugueses. O PS e o PSD com e sem o CDS, são os únicos responsáveis pelo atraso estrutural do país, são os únicos responsáveis por Portugal ser um país completamente dependente do exterior em todos os sectores. Mas o povo é também responsável por termos tido este tipo de políticas, uns por terem feito as suas escolhas e outros por não terem votado e permitido que outros tivessem escolhido por sí.

Não é uma utopia, mas antes uma necessidade, que o país seja governado sem o PS e PSD. Está nas mãos de todos nós acreditar nessa mudança necessária e termos a iniciativa de assumir todas as nossas responsabilidades pessoais e colectivas para ultrapassarmos esta complicada situação e conduzirmos o país a um futuro melhor para todos e não apenas para alguns.

Crónica publicada no Jornal Opinião Pública de 23/03/2011




"O mal dos seres humanos, é que preferem ser arruinados pelos elogios, a ser salvo pelas críticas."